PRIMEIRO AS SEM HORAS

Fernando Kawendimba

O meu visto de vivente no mundo insensível foi de dois grãos de anos – nesse ano completaria vinte jovens anos. O tempo foi-me insuficiente para encarnar papéis de adulto, de adúltero ou para fotocopiar o pecado original. A inexperiência interna, ou melhor, a experiência eterna de familiaridade compensa e consente o bom que foi ser aspirante a ser animal racional. Dentre os ganhos de ter sido humano: o meu kota. Um indivíduo plural na sua singularidade.

O meu kota mora na capital do meu coração, desde então. O meu mais velho irmão de sangue é ele. Não velho, não menos irmão, mas mais sangue. Ele circula-me as veias e as artérias desde que a mamã encontrou-me além-fronteiras do seu ventre. Somos um com o outro. Sobretudo desde a hora que voltei a habitar a luxuosa luz perpétua. Às vezes trata-me como um filho, mesmo que ele sempre tivesse abortado a ideia de ter um filho com as suas impressões genéticas.

Certo dia, o kota fazia-se acompanhar por um anjo como nós. Os dois figuravam encostados à parede coronária, propriedade minha. Fechei os olhos para os enxergar mesmo bem… apurei que ela afinal não era um anjo como nós. A primeira impressão enganara-me como de costume. Era ela um arcanjo humano? Um arcanjo feminino? Dentre os ganhos de ter o meu kota como irmão: a minha cunhada.

Por mim, em mim jamais será proibida a livre circulação de pessoas de bem. Ora, aquele arcanjo feminino é melhor que uma pessoa de bem. Primeiro: preenche o vazio que acha na existência do meu irmão. Segundo: estou certo que, se ambos procurassem um pelo outro, ter-se-iam desencontrado. O amor achou-os e uniu-os até que a morte os mantenha um, unidos, únicos. Aquilo foi amor à primeira conquista. Terceiro – e suspendo a contagem: a minha cunhada é maior que um bem em pessoa. Não é à toa que o meu irmão agora dispõe-se a ser pai de milhares de filhos, sendo ela a mãe dos seus. Não vou repetir mais: a minha cunhada é maior que um bem em pessoa. Não vou repetir mais, mas não acreditem nessa promessa.

Por isso, ao vê-la triste como nunca, no meu coração fez-se a noite mais escura.

Quando prudentemente ela fora ao médico para rever o seu aparelho de fazer descendentes, nela vestígio de alegria e esperança não havia mais. Ao saber do diagnóstico, ela amassou o potencial papel de mãe com a ligeira raiva que lhe cabia. O planeamento familiar aparentava estar frustrado. As turbulências emocionais, nas nuvens do seu cérebro, estavam anunciadas. A minha cunhada logo informou ao meu irmão que, segundo o médico, os filhos nasceriam; mas a dor de parto, de perto, havia começado antes de uma eventual gravidez. A conceção seria difícil como a separação factual de dois amantes. O doutor não disse isso. Não disse isso assim. Mas ela ouviu e creu.

Antes da era dela, o meu irmão dispensava ser pai. Afugentava a ideia de ver reproduzidas as suas imperfeições numa pessoa. No governo dela, ele faz questão de multiplicar e encher o seu mundo de frutos do ventre daquele bem em pessoa. Com aquele diagnóstico, um conflito estava instalado. Mas o amor é um faz-tudo. O amor é um cura tudo. O amor sabe tudo.

Eu, daqui do céu, compreendo as fragilidades humanas. Não posso ignorar as limitações que o tempo prega aos mortais. Aquele casal apaixonado que se ama sem horas e momentos precisava de uma verdade analgésica. Primeiro as senhoras. Sobretudo aquela pequena senhora sem hora para amar.

Anteontem encontrei a minha cunhada enquanto passeava a sua mente pelos desertos e silêncios que descobria à sua volta. O que a rodeava eram as paredes do meu coração. Com parcimónia, anunciei-lhe que eles teriam uma descendência de excelência. Para que a ansiedade não a tomasse, fiz o anúncio sem prenúncio de horas. Primeiro as pessoas e coisas sem horas. Ela era sem hora. Era além do tempo. Ela era mãe num pretérito, presente e futuro perfeitos. Os homens nascem das mães, as mulheres nascem mães. O casal hoje segue as suas outras vidas. Eu que experimentei a vida na terra aquém do terceiro ano de idade, vejo os meus sobrinhos vivendo além da terceira idade. Dentre os ganhos de ter esse arcanjo humano feminino como cunhada: os meus sobrinhos que hão-de nascer. Antes da sua passagem por aí, a vida eterna faz-me privilegiado, por os conhecer pelas esquinas dos céus imensos.

Repito mesmo de alma cheia de razão: a minha cunhada é maior que um bem em pessoa.

Fernando Kawendimba

Lisboa, 21 de dezembro de 2019

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *