ASSALTO AO QUERER

Antes da aurora do dia seguinte, Usumba tinha de ir juntar-se às irmãs. Haviam de
produzir uma festa de anos surpresa para o pai.

A idade do velhote aniversariante figurava muito acima da esperança média de vida. Merecia um banquete. Usumba tinha, por isso, agendado retirar-se de casa antes que o sol desse o brilho da sua graça. Ohele, o esposo dela, não assentiu. A discussão do assunto foi a sobremesa no jantar. Que a esposa esperasse que a luz do dia afugentasse pelo menos os gatunos noctívagos. Esse era o seu último peditório. Não foi atendido. Entendido também não foi. Ohele tinha suplicado à esposa, mais um pouco:
– As ondas de assalto têm aumentado, meu bem: bem à beira da nossa rua.
– Eu sei surfar, homem.
Deitaram-se de costas e opiniões viradas. No quarto escurecido e silenciado pela madrugada, o casal e o seu casamento estavam em modo de sono, lentos, sonolentos como um bicho-preguiça. Na cama calma, Ohele ultrapassara a noite a tentar ajustar-se à sonolência sem fundo. Nem aquele leito aromatizado e macio favorecia-o o relaxamento. Na hora em que quase começava a sua experiência onírica, tomou um susto. Este fora dado involuntariamente pela sua esposa. Ela tinha caído da cama, em pé, produzindo um som despertador. Usumba, não me deixarás descansar em paz senão na hora da minha morte, n’é? A esposa não emitiu palavra alguma como resposta: nem uma só vulgar vogal. Pior: acendeu a luz da lâmpada, tornando as coisas invisíveis para o homem. Era muita luminosidade para quem se recusasse a estar desperto. Ela marcou passos para o banheiro. No fundo, Ohele sabia que Usumba normalmente levantava-se da cama e só depois acordava. O abrir a boca, o coração, os olhos, os ouvidos era um procedimento tardio, após o levantar-se. Para chegar à vigilância, ela era cautelosa, silenciosa, vagarosa. Todavia, naquele dia estava mesmo ansiosa para honrar o pai.


Regressou ao quarto limpa, linda, vestida, pronta para sair. Pronto: afinal, ponto final. Ela sempre sairia. Ponto final. Ohele não achou esconderijo para o seu medo. A probabilidade de que Usumba seria vítima de furto era muita, aliás, toda. Emitiu o seu ultimíssimo peditório: amor, não achas que tu e eu devemos falar connosco? A conversa aconteceria. Não naquele lugar e tempo. Usumba tinha pressa. Despediu-se do marido como se estivesse a demitir-se do casamento. O beijo foi pobre, doente, morto. Entretanto, ficou combinado que Ohele a encontrava em casa do pai dela, à hora do jantar. Isto é, à hora do banquete. O homem sabia que aquela situação não passava de passageira. Tomou uma dose de otimismo, sem água nem prescrição. Automedicou-se consolo instantâneo. Foi engolindo um juízo que lhe escorraçava o temor que tanto o inquietava: a minha esposa chegará ao destino como ela e Deus querem, creu.
– Marido, marido, fui assaltada.
Podia ser um pesadelo. Era pesado, opressivo, mau, mas seria um sonho apenas. Afinal ele havia adormecido. Ou não? A importunação era que aquela voz era real, infelizmente. O indesejado tinha acontecido. Usumba foi encontrar o marido debaixo dos lençóis. Ela ainda calçada, vestida e revestida de angústia.
– Roubaram-te tudo, Usumba, meu amor?
– Roubaram-me toda, Ohele.
Nessa hora, o homem confirmou a sua hipótese: às vezes, o mundo da mulher cabe na sua própria bolsa. Da eufórica saída de casa à histérica entrada de Usumba, tudo tivera a duração média de uma faixa musical. O furto foi mais rápido que os países em via de desenvolvimento, segundo a estimativa feita por Ohele. Usumba contou que não havia muito a contar. Ela não chegara a se distanciar muito do portão. Os ladrões, de terno e gravata, já estavam na zona a falar merdas como muitos políticos nos noticiários.
A mulher pediu desculpas ao homem por o não ter escutado com o coração. O homem pediu perdão à mulher por ter falado com a razão. Ambos se fundiram num abraço e meio. Ohele sugeriu que quando amanhecesse fossem à esquadra policial. Àquela hora, a polícia não atendia as suas chamadas. Desabafou: quando não são os seus números, desligados estão eles mesmos. Usumba agradeceu o gesto, porém sugeriu que fossem antes ao consultório de psicologia: quero prevenir um potencial trauma psicológico ou outros danos quaisquer. Concordaram que iam aos dois sítios.

Os produtores de delinquência, ultimamente, têm sido autores e atores de cenas forte, desumana e criativamente violentas. Nisso concordaram veementemente. Após a experiência imediata da dor causada pelo furto, a mulher não teve dúvidas disso.
Usumba sentiu que lhe haviam assaltado o querer e o poder de ser livre. Pegou no telemóvel de Ohele para anunciar o motivo do seu atraso às irmãs. Ou o fundamento da sua falta. Uma das irmãs disse-lhe que não se preocupasse. Elas tinham ouvido a ata relatada em primeira pessoa. Reconheceram a sua bolsa pelos documentos de identidade pessoal. Aqueles ladrões eram funcionários do pai. Já estavam a ser castigados, fustigados pelo incidente de trabalho. Aliás, o velhote ponderava suspender-lhes a vida humana. Seria uma festa de anos a matar, de morrer, disse frio, como se no seu coração fosse cacimbo. Usumba não se lembrava como fora capaz de esquecer que o pai, em matéria de quadrilha, era um quadro. Ohele amenizou o constrangimento: amor, vês que essa onda de assaltos está quase insurfável, não é?

Fernando Kawendimba

Lisboa, 25 de novembro de 2019


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