MADRASTA É A TUA MÃE

Finalmente, Ewá podia gozar de um temporário descanso. Um sábado que durasse sessenta ininterruptos dias. Férias tamanho G. Tarefas escolares: zero.

A pequena Ewá era como refugiada para cada compartimento da residência. Lá, o alvorecer de segunda-feira não ia com a cara da sua presença. Ewá passava os dias a ferro, queimando-os na escola. Todos os dias, de dia.

Às dez horas da manhã, o seu quarto estava escuro: são vinte e duas horas da manhã ou quê?, interrogou-se. Também ela estava nem aí para as serventias e simpatias da casa ou do tempo. O ócio não lhe permitia negatividades. Sobravam-lhe otimismos. A paciência dava-lhe abrigo. Aprendera a ser assim com a sua madrasta.

A menina acendeu as luzes dos seus olhos e as das lâmpadas dos cômodos e foi à cozinha. Enquanto matabichava, imaginava-se na pele de Alice no País do Pai Banana. Aventurava-se nesse sonho: tinha consciência que a sua realidade não era recomendável a menores de idade.

– Assassina precoce: estás a matar aula porquê? – Ina Yokatumba vomitou esse grito ao coração da menina, pregando-lhe um susto como quase sempre, depois de surgir sem ser desejada.

– Não há mais escola, mamã! – Ewá respondeu engolindo tudo: as palavras malcriadas, bem como o chá com pão que por pouco não lhe escaparam da boca. – Ano letivo já acabou semana passada. Mamã não sabe já?

Foi assim que a encarregada de educação tomou o conhecimento e repartiu-o: eu sei, eu já sabia. Fingiu que testá-la a memória era a sua segunda intenção. Não havia uma primeira. Todavia, a vergonha da ignorância matava-lhe suavemente a arrogância. O que fazer? Se a menina errasse, ela castigava-a. Quando ela era a errante, a senhorita punia-a. Então expressou-se assim:

– Não me olhes como se eu fosse assassina, menina: eu nunca faleci ninguém! – E prosseguiu mais maledicente. – Para o teu castigo, vais passar as tais tuas férias para a casa da Kandjendi, aquela bruxa da tua madrasta, ouviste!?

Era o prémio do ano. A menina tinha sido condenada a passar uma temporada com a pessoa que mais amava. Aquela pena desprendeu um sorriso dos seus lábios. Ai dela se Ina Yokatumba descobrisse tal satisfação. O que os olhos não sentem, o coração não vê. Proverbiou no silêncio e na sua versão.

E foi arranjar-se.

Em minutos mini, a menina estava de malas feitas e males desfeitos. Feliz em segredo. Ina pô-la no machimbombo. Começou a viagem. Ewá viu a paisagem de passagem. A escola. Esta era uma árvore, a sua escolinha. Na sua localidade, o ministério da educação era um mistério doloroso. Quase sempre. O sistema de ensino era portador de deficiências. Os professores desconheciam-lhe a cura e ignoravam o tratamento. Coroam-se de espinhos as inteligências dos alunos. E a direção? Fazia nada. Desfazia tudo. Ewá comparava-os aos desenhos inanimados. Animados, para ela, eram a dupla fauna e flora. Cantavam a beleza natural sem desafinar, sem desanimar.

Trinta quilómetros depois, a menina tinha chegado ao bairro de destino. A casa das férias já a mirava, de porta e janelas abertas para a acolher. Caminhando, deixou-se atravessar pelas pessoas, suas alegrias e esperanças. A pequena sabia que muito aprenderia por meio da inatividade escolar formal.

– Bem-vinda, menina Ewá!

Estava dito. Estava feito. Sentiu-se em casa. Naquela simplicidade havia felicidade em fartura. Kandjendi, que por um telefonema odiento fora avisada há pouco mais de quarenta minutos que receberia a menina, de castigo, demonstrou condições que impossivelmente ficariam prontas em quarenta dias e quarenta noites. Ewá admitia: amor na mesa é alimento para o coração. Quando crescer, queria ser ou sempre criança ou como Kandjendi.

Ao longo dos dias, Ewá observava que Kandjendi não tinha aprendido a ser madrasta, no sentido difamado da palavra. Definitivamente, ela não tinha vocação, talento, dom para ser má. Custava-lhe ser impaciente e cheia de maldade? Como teria desenrascado aquele amor materno, se não tinha filhos?

As suas reflexões intensificavam-se à hora de dormir: alguém sujou as fichas das madrastas. Nem aos cadastros dos padrastos são comparáveis. Alguém não: alguéns. Serão as sogras bem azedas só!? Não: parece que estas são outras injustiçadas. Isso deve ter o dedo da minha mãe?

Uma vez que Kandjendi encontrava-se mesmo à beira da cama da menina, entoando-lhe canções com efeitos soníferos, Ewá não se deixou calada:

– Madrasta Kandjendi, a minha mamã e você não têm os corações trocados, nem nada?

Pergunta difícil. Como falar sem falhar? A senhorita ficou pobre de sábias palavras. Que improvisasse então. Ocorreu-lhe não parar de cantarolar, de ninar a pergunta. Acordes depois, Ewá logo estava belamente adormecida.

Kandendji beijou a testa da menina, abençoou-a e falou em desnutrido volume:

– Madrasta é a tua mãe. – Falou-lhe de coração cheio de maternal amor, para não ser escutada, enquanto recolhia a lágrima que lhe estava à espreita. – Tem uma noite tranquila, minha filha!

Fernando Kawendimba
Lisboa, 10 de dezembro de 2019



Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *