INDEPENDÊNCIA NA CASA

Os irmãos não acordavam sozinhos. Nunca dormiam sós. O trio era uma unidade, os três eram quase um só indivíduo. Naquela manhã de domingo, eles não tinham necessidade de despertar. Antes disso, tinham sido desprovidos de motivos para adormecer na noite imediatamente anterior. Outra verdade é que o sono não se deixara apanhar por eles. Na noite do último sábado, os seus padrinhos não tinham infirmado a sua informada retirada. Estes, honraram palavras e palavrões. Ao amanhecer, tinham partido.

Os padrinhos estavam cansados dos meninos e estes, descansando na ideia de ficarem sem aqueles. Joaquim e Andreia não eram bons nem maus com os afilhados. Eram aqueles deuses que os tinham criado e não gerado. No quesito amar-se um ao outro, o casal não era amador. A recíproca dedicação não era por prazer. Viam, viviam e exerciam profissionalmente o amor mútuo. Para ambos, amar era trabalhar: servir não. Mas Andreia cansou-se de trabalhar, ou melhor, de amar sem remuneração. Mais tarde, o cansaço virou preguiça. Então, tiveram de repensar esse amor, se ainda quisessem ser um casal. Quando iam divorciar-se, bem às portas do tribunal sentimental, encontraram os bebés trigémeos sem pais, sem país, nem paz.

– Esses gajos atearam fogo da paixão em nós, quando já tínhamos os corações em cinzas. – O casal rezingava, escondendo a felicidade que experimentava.  

O trio, porque nascido do mesmo parto, não comia se não fosse no mesmo prato. A sua mãe não viveu para os ver morrer na miséria. O seu pai morreu para não os ver viver na miséria. Também eles adotaram os seus padrinhos que se converteram nos seus legítimos pais. Os pequenos diziam: vocês não são pais-nossos; padrinhos também não: vocês são os nossos padrões.

Aos poucos, essas falas confessionais de amor, frequentes nas suas duas primeiras infâncias, foram deixando de fazer sentido. Os padrinhos, ou seja, os então padrões foram sendo vistos como pratões carrascos. Todos foram felizes para quase sempre. Na verdade dos meninos, Joaquim era todo ocupado: trabalhava até se fartar de faltar ao lar. Portanto, voltara a trabalhar muito-muito-muito. Andreia fazia o oposto. Fazia nada, por preguiça mesmo. Como aquela que os teria precipitado ao divórcio. Ela desfazia-se de si. Não sabia moderar a sua estadia em casa. Em casa, era presente por excesso. Os meninos cansaram-se dela e do amor que os impunha. Essa fadiga contagiou Joaquim. Canseira geral. O casal divorciou-se dos meninos. Ambos mantiveram-se mais amantes que cônjuges. Foram embora, não conseguindo salvar-se indiferentes às suas diferenças em relação aos trigémeos idênticos. Enfim, os meninos ficaram. Sem os seus padrinhos. Com o seu sobrenome. Sem o seu lar. Com a sua casa. Sem a sua companhia. Com a sua campainha. Ficaram os meninos, enfim.

Independência! Era com esse nome que o trio tinha batizado o seu recém-nascido estilo de vida. Reduziram a frequência à escola. Para quê continuariam assíduos se já saboreavam o pão num amanhã antecipado? Conectaram-se ao mundo pelos ecrãs múltiplos que foram comprando. Treinavam mais pornografia que ortografia ou caligrafia, por exemplo. Apertavam-se as mãos sem se cumprimentarem. Depois, deixaram de se ver a olhos crus e nus. No mesmo quarto, telefonavam-se, teleguiavam-se, televisionavam-se. Essas telecomunicações foram ruindo de tanto ruído. Adversos ao trabalho, amavam-se ao avesso. Faziam birras: à bebé e a de beber. Os meninos perceberam que o ser felizes para sempre também chegava ao fim.

Usando grafias erradas, as únicas que lhes sobrava nas mentes e nas mãos, escreveram cartas de arrependimento aos patrões, aos padrões, aos padrinhos, a quem quer que Joaquim e Andreia ainda fossem, pudessem ou quisessem ser. Os três pediam que o casal regressasse à casa e trouxesse de volta o lar. Um outro e qualquer lar que os libertasse daquela irresponsável liberdade. Era urgente. Os meninos já não eram um só, tampouco os mesmos. Eram obviamente três e separados, ou melhor, uns bons amigos desunidos. Estavam na iminência de deixarem de ser gémeos, romper com a irmandade. Por cada carta enviada ao casal, recebiam nenhuma de volta. Ficavam baralhados, mas perceberam que aquela era a resposta: doravante, tinham-se somente a si, uns aos outros, sós, sozinhos, se quisessem existir vivos e saudáveis.

Daí, quando precisassem do casal recorriam à memória e encontravam-no por lá. Os meninos perdoaram-no as falhas e perdoaram-se, infalivelmente. Agradeceram-no por os terem dado à luz depois de nascimento. Juntaram os pedaços das lições de amor, de beleza, de bem, de esperança, de fé, de justiça, de unidade. Renasceram. Assim, reiniciaram a independência na casa interior.

Fernando Kawendimba

Lisboa, 23 de novembro de 2019

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